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qUanto tEmpo rEsta?


Já viu aquele teste da morte que está rolando na internet? É um banner que dá uma risadinha irritante quando passa o mouse (claro que você lembra, está em todos os sites, todos). Aquilo é um teste para saber quanto tempo te resta de vida. Na décima vez que vi até tentei fazer o teste pra ver se a risadinha parava de encher o saco. Na verdade é o tipo de coisa que ninguém acredita, mas todo mundo tem uma pontinha de curiosidade de saber (agora eu ia fazer uma comparação engraçada, mas fugiu, igual... igual...).

Cliquei na parada e fechei os olhos. Mas aí pediu o número do meu telemóvel. Nanãnina, já caí nessa uma vez. Se você der o número, fudeu. Daqui a pouco chega uma mesagem que custou 2,50 euros (Oito reais!) só pra receber. Rá! Não faça isso, nem que o banner prometa o paraíso com 100 virgens (que vai custar muito mais do que os 2,50).

Não fiz o teste, mas fiquei com isso na cabeça. Aí apanhei o elétrico para dar uma volta e tudo fez sentido. Um senhor muito arrumado dizia calmamente a outro passageiro: tenho 2 anos e 2 meses de vida. Hã? Na hora pensei, ele caiu na historinha do banner.

Mas aí o outro perguntou, preocupado, o senhor tem alguma doença grave? Não, li hoje no jornal que a expectativa de vida do português é de 72 anos. Completo 70 anos daqui a 2 meses. Portanto, restam-me 2 anos e 2 meses de vida. Portanto, o velório será no dia 13 de fevereiro de 2011. Portanto, queres vir? Portanto, todos viraram o pescoço. Portanto, pensei: campanha integrada.

*não estou recebendo nada pela menção ao teste da morte, juro.

oDisséia dE nAtal

Meu primeiro natal longe de casa foi confuso. A começar pelo peru [ou melhor, a não começar pelo peru]. Porque em Portugal come-se bacalhau no jantar do menino Jesus. Rá. Não é nada pessoal, eu amo bacalhau. Quem me conhece pouco já sabe. Mas é que natal, peru, peru de natal [mamãe preparando o peru de natal], percebeu? Faz todo o sentido. Tudo bem, descobri que no almoço do dia 25 tem peru recheado. Mas não é a mesma coisa. Peru tem que ser no dia 24. Depois é risoto.

Por fim, juntamos alguns "familess" numa casa e fizemos o nosso próprio natal lusitano. E o jantar foi a cargo, vejam só, de moi. Sim, a responsabilidade de compensar as pessoas da distância de seus pais e avós nesta noite tão especial foi depositada em mim. Pensei logo naquele peru Sadia temperado, que é só enfiar no forno e esperar o pininho vermelho saltar. Mas em Portugal não tem pininho, nem tempero pronto. Se quiser um peru tem que matar, depenar, temperar e cozinhar sozinho. A solução foi escolher um prato mais familiar: costela de porco ao pesto e risoto [salve Jamie Oliver, salve Calebe Asafe]. A salada veio direto da Polônia.

Às 20h do dia 24 saltei do elétrico na rua Saraiva Carvalho e cheguei até a Ferreira Borges para preparar o jantar, equipado de temperos e ingredientes na mochila. Mas quando fui pôr a mão na massa, descobri que tinha esquecido em casa um ingrediente muuuito importante, o porco. E não dava nem para pedir uma pizza porque não teria ninguém para entregar.

Corri então para o ponto de táxi mais próximo e peguei o único carro que restava. Por favor, senhor, preciso resgatar uma costela de porco na Baixa Lisboa. No meio do caminho outra surpresa, eu estava sem a chave de casa. Pára o táxi! Meia volta para a Saraiva Carvalho, shifaizfavoire. Quando voltamos, a porta era diferente. Não é aqui, estamos na rua errada! Claro que é, retrucou o motorista [com uma irritação típica natalina], Saraiva Carvalho é esta, ora pois! Não pode ser, acabei de sair daqui, está diferente. Ahhhh, foi quando percebi que a rua certa era Ferreira Borges. Saraiva Carvalho era a rua do Elétrico. Chegando na Ferreira Borges, peguei a chave e fui direto para a Baixa. Subi os 5 andares de casa correndo. Peguei o porco e voltei para fazer o jantar. Ufa!

As últimas esperanças de um jantar feliz estavam depositadas em 2 bocas elétricas de um fogão estranho que eu nunca havia usado antes. Eu precisaria de 3 bocas, mas tive que fazer com 2. E após 1h30 de expectativas e reviravoltas, o jantar de natal mais confuso do mundo aconteceu: costela de porco, risoto e salada polaca. Vualà.

Ainda teve o assalto que a nossa amiga sofreu um pouco antes do jantar, quando foi à rua telefonar para a família. Levaram seu telemóvel [celular]. Situação chata para uma noite de natal. Mas pelo menos não levaram o porco.

Moral da história: não deixe um porco substituir seu peru de natal. Dá azar.

gRampo


- De quem é esse grampo?

- Não sei, não é seu?

- Eu não uso grampo. Anda fala, de quem é esse grampo que eu achei aqui na cama?

...

Meu deus, e agora Ela me pegou, droga Como é que eu pude ser tão estúpido Putz, um grampo vai fuder meu casamento Não é possível que eu caí nessa Que básico, que estúpido, que amador Ou melhor, que amante amador eu fui Nem foi tão bom Foi só uma vez e pronto Já está Passou Tinha até esquecido Acabou Não quero vê-la de novo Estava sozinho pô Foi por acaso Eu gosto tanto dela, não fiz por mal Não muda nada Eu a amo Vai acabar assim Por causa da merda de um grampo Não pode Mas não tem outro jeito ela achou o grampo Vou confessar ela vai me perdoar e vai ficar tudo bem Não não vai Ela nunca vai esquecer isso Vai fingir que esqueceu Fingir que me perdoou Mas não vai Sempre que me deixar sozinho vai pensar será que ele está com outra Nosso casamento vai apodrecer aos poucos até o cheiro ficar insuportável Aí acaba Aí passaram 10 anos Aí meu filho fica sem pais

Peraí, o que que eu estou dizendo? Podia ser pior. E se ela encontrasse um fio de cabelo loiro? Aí sim ia fuder. Um cabelo loiro não se encontra por acaso numa cama. Cabelo loiro é inconfundível. Já diz tudo. Denuncia. Não tem como negar. Impossível. Oh, meu bem, esse cabelo não é seu? Rá, ela não é loira. Vai brotar na cabeça dela um fio amarelão do nada? Óbvio que não. Cabelo loiro é cabelo de amante. Cabelo loiro já vem com pecado em anexo. Cabelo loiro é a maçã proibida. Um fio de cabelo loiro pode destruir o mundo. Lembra da Helena? Um grampo não. Um grampo é plausível. É racional. Pensa só, o grampo foi inventado para deixar alguma coisa no lugar, não foi? Organizar. Arrumar. Disciplinar. Não pode ser uma coisa ruim. Não. Grampo é bom. Que bom que você encontrou um grampo, querida. Aproveita pra arrumar o seu cabelo que está todo em pé. Ele fica bem mais bonito arrumadinho. E outra, você fica muito brava quando eu despenteio o seu cabelo. Furiosa, aliás. Cabelo de mulher não se mexe, você sempre diz. Não vai dar certo. Ela acabou de dizer que não usa grampo. Vou tentar.

- Tem certeza que esse grampo não é seu?

- Claro que não, Jorge. Eu fiz permanente. Anda, de quem é esse grampo?

Puta que o pariu. Permanente. É mesmo, ela agora é meio loira. Ah! Porque não eu não trouxe uma loira? Ia funcionar direitinho. Não seria do mesmo tom, mas aí era só dizer que o fio desbotou com o tempo. Pronto. Morreu a conversa. Ela não ia fazer o teste de DNA. Muito caro. Já gastou o dinheiro do ano todo com os peitos novos. E nem ficou tão bom assim. Ah, grampo, grampo, grampo, como esse grampo ia aparecer? Da janela? Um pássaro trouxe. Aqui é cheio de pombos.

- Pombos.

- O quê? Jorge, o que que você está falando?

Eu falei isso?? Putz. Concentra, concentra. Grampo. Um grampito. Ah, não dá, acabou o tempo. Não sei, vou confessar. É melhor ser sincero. Digo que eu estava com saudades dela, eu transei com outra mas pensei o tempo todo nela. Era ela que eu queria. Minha querida esposa. Ah, por que ela tinha que viajar 1 semana para um congresso de dermatologia? Por que eu não limpei a casa, droga. Peraí, a empregada! Claro, a Dna Maria usa grampo concerteza. Aquele cabelo todo atrapalhado, os fiozinhos levantados. Grampo neles. É isso! Foi arrumar a cama e o grampo, vejam só, caiu!

- Se não é seu é da Dna Maria. Deve ter caído quando ela foi arrumar a cama.

...

...

...

- Vou fazer um café, quer?

- Aham.

eLétrico 28



Outro dia apanhei o elétrico 28 [bonde]. A latinha amarela mais famosa de Lisboa. Sentido Alfama, claro. Era manhã de sábado, e por incrível que pareça, lá estava eu, de pé. Pronto para encarar as ruadelas estreitas e o andar soluçante desta caixinha simpática montada em trilhos. Não dá pra saber como não tomba nas curvas. Parece desafiar as leis da física, da mecânica, da gravidade e do tempo. Não importa. Tem coisas na vida que não precisam de explicação.

E o elétrico de Lisboa está na moda. É cool. É vintage. É indy. Bom de olhar. Não é confortável. Não tem que ser. Sabe aquela maleta de madeira cheia de selos e carimbos de viagens colados por cima? Não que seja a melhor maleta pra viajar, longe disso. Não estamos falando de eficiência. Aliás, não cabe quase nada dentro dela. É desajeitada e ocupa muito espaço. Mas é só olhar para uma que você abre o sorriso. No mínimo aquele de canto de boca que não dá pra segurar. É automático: viu-sorriu.

Miradouro da Graça. É aqui que eu fico.