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bOlo dE cEnoura

Se você é brasileiro vai entender essa. Vai entender porque provavelmente já comeu bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Sabe aquela que vira uma casquinha depois que esfria? Tudo bem, a outra cobertura melada também é boa. O foda dessa é a lambança. Parece que você está comendo manga ensopada no fondue de chocolate em cima d0 tapete branco da sua tia neurótica por limpeza. A verdade é que você ficou 40 minutos ao lado de um forno a 250º C [523,15 K] esperando o bicho ficar pronto. E mais uns 15 minutos até esfriar [a pior parte]. Comeu. Comeu. Lambuzou. Esse é o troco, meu caro. Mas vale a pena. Depois é só lavar o dedinho dentro da boca. E pegar outro pedaço.

Voltando à casquinha. Eis um dos mistérios da vida. Não dá pra entender como uma cobertura à base de nescau, leite, açúcar e uma colher de margarina pode ficar tão boa. Aliás, a própria massa do bolo é algo inacreditável. Farinha, um punhado de cenoura [previamente descascada], açúcar, leite, fermento, e depois, joga tudo no liquidificador. Fácil. Vrum. Vrum. Encheu de espuminha? Tá pronto. Aí é só despejar o líquido numa forma [tabuleiro em Portugal] untada com manteiga e farinha [a parte que dá mais trabalho em todo o processo]. Lembrou de preaquecer o forno? Relaxa, eu também nunca lembro. Espere até o bolo se desprender da forma. A essa altura você já deve ter feito a calda. Não vou contar a receita porque calda é algo muito pessoal. Melada ou casquinha? Isso constrange muita gente. Finalmente, despeje a calda por cima do bolo ainda quente. Dica: faça uns furinhos no bolo com o garfo. Assim ainda ganha um recheio de brinde. Inacreditável, não? Você acabou de fazer o bolo de cenoura da mamãe [ou da vovó].

Para acompanhar, prepare um copaço de leite com toddy bem preto [o nescau você já usou no bolo]. Agora corre para o sofá senão vai perder o começo da sessão da tarde. Hoje é terça, dia dos Goonies. E tá chovendo.

vEnto dEbaixo


Eu passo aqui, ela passa ali e o vento passa lá, debaixo da saia, revelando a calcinha [preta] distraída e um sorriso cor-de-rosa, quase inocente. Sentei-me no banco mais próximo, na ponta da praça, para ver se passava outra [calcinha, mas não necessariamente preta].

Há praças com fontes, outras com circo e outras com pombos. Esta tinham pombos e o mais importante: o vento debaixo. Parecia mágica. Apressadas, elas fugiam do sinal vermelho e davam de cara, ou melhor, de saia, com o vento quente da estação de metrô. E quando sentiam a grade estremecer, rá rá rá, já era tarde. Saia do avesso e sorriso estampado [o meu e dos transeuntes]. Sempre quis escrever esta palavra: transeuntes. Saias transeuntes. Calcinhas transeuntes. Sorrisos transeuntes. Moralidade transeunte. Chega [de transeuntes, não de saias]. Mais uma, outra e mais outra. Pausa. Dez minutos sem saias. Parece que chegou o outono.

1950
Sento-me no banco para ver se passa outra saia transeunte. Ao meu lado há um senhor, bem velhinho, mas inteiro. Espere, outra saia... vento, vento, vento, yes! Levantou. Comento com ele. Venho aqui todos os dias para ver as saias levantarem, apontei com o dedo, orgulhoso. O senhor também, certo? No que responde: tirei minha carteira de motorista em 1950 e nunca levei uma multa [não sei porque na hora pensei na copa de 50, Brasil e Uruguai]. Tenho 96 anos. Noventa e seis? Nossa, não parece, o senhor está muito bem [e não parecia, acho que depois dos 70 não dá mais para envelhecer].

Revigorado, perguntei novamente das saias [em tom um pouco mais alto, claro]. O senhor viu o vento do metrô levantar a saia daquela menina? Ele sorri e diz, apontando para a vespa estacionada à frente: é sua? Olhei para os seus olhos cansados e disse, sim, é minha [não era]. Passou outra saia do avesso. Ahh, perdi.

a mEsma pRaça

Um casal dengoso. Três crianças ao sol. Um aprendiz de malabarista. Um grupo de adolescentes vestidos de preto [não eram emos, tão pouco new punk rock street guys vintage flowers]. Um bêbado. Segue. Pára. Há outro casal grudado no banco da praça.

Ele, alto, magro, tênis velhos metidos nos pés e blusa listrada de amarelo e cinza. Ela, pequenina, nem magra nem gorda (tá bom, é gordinha), óculos redondos de armação grossa e perninhas curtas. Enquanto conversavam, as perninhas balançam com uma distância considerável do solo: "...conversa vai, pezinhos vêm, conversa vem, pezinhos vão, mas nunca tocam o chão." [não, você nunca ouviu isso antes. Não, não resisti].

Clímax. Algo que ele diz a faz gargalhar. As perninhas balançam mais do que nunca [ou mais do que sempre]. Cada vez mais longes do chão. Ele continua com as pernas largadas e os pés enterrados. Ela flutua. Leve. Satisfeita. As mãozinhas se juntam no cólo concentradas para alcançarem o ponto de equilíbrio. Seu chacra-mór. Seu íntimo [ou isso tudo junto]. Agora entendi porque há vão debaixo dos bancos da praça. Para as perninhas poderem balançar livremente. Sem atrito. Pra lá e pra cá, para cá e para lá. Silêncio. Dez, quinze, vinte segundos. Entreolham-se. Calados. Sorriem. Mais quinze segundos. Ninguém se incomoda. Será o amor? Balança mais pra cá, mais pra lá. Por um segundo desejei ter pernas curtas. Pra lá. E. Pra cá.

aLmofadas


Já reparou que as mulheres gostam de ter muitas almofadas? Não basta uma ou duas ou três. Não, têm que ser 5, 7 ou 9 [10 para arredondar]. Uma de cada cor. É confuso, você está no sofá ou na cama assistindo a um filme e elas estão ali, amontoadas nas suas costas, debaixo do seu braço, no meio das suas pernas, atrás da orelha. A sensação é que você está o tempo todo cercado por aquelas coisas fofas e, por incrível que pareça, não pode fugir. Aí você bate daqui, soca dali pra ver se o problema é com você. Nada. Continuam ali debaixo, fingindo que te confortam, que te esquentam. E olha que eu nem cheguei nas cobertinhas que elas insistem em cobrir vocês dois na hora do filme. Tá calor? Se fudeu.

A verdade é que elas estão ali sufocando você. Igual naqueles filmes. O bandido enterra uma almofada na cara do outro até ele perder a respiração. Ou usa a almofada para abafar o som do trêis oitão. Não, não é igual. É pior. Neste caso as almofadas matam aos poucos, paulatinamente. É cruel. No começo você esmurra a coisa pra ver se melhora. Mas elas sempre voltam à posição anterior. Você faz movimentos bruscos para mostrar que não está satisfeito. No fim, você se acostuma. Entrega-se. É foda, você sabe que não precisa daqueles quadradinhos coloridos te apalpando. Você preferiria ficar no chão frio. Quieto. Pensando em nada. Sua única exigência seria uma parede bem sólida para apoiar as costas. Mas não, você não tem coragem. Você fica ali o tempo todo no falso conforto. Derrotado. Reclamando em silêncio [das almofadas].

tAxi

Noite fria de outono em Lisboa [pelo menos para os africanos e americanos do sul]. Bares e pessoas se fecham mais cedo [ou será fecham-se?]. O fado rouco desaparece na madrugada. O rio volta pra casa. E a rua evapora o último gole de amigos. Você pensa, lá se vai mais um episódio cálido da noite lisboeta. Rá. Aí vem um táxi pra fuder o juízo que sobrou. Clássico.

Já reparou que o táxi nessa cidade é uma verdadeira tragédia? Sim, cada indivíduo que habita essa redoma de lata movida à diesel parece um esboço vivo, senão tosco, da patética figura humana.[prometo que esta é a última metáfora]. Não digo apenas do mau humor que impera no semblante deles, nem das certezas praguejadas pela janela. Talvez esse comportamento seja apenas um acessório obrigatório da difícil rotina deste ofício. Como uma gravata que tem de ser usada. Um crachá. Ou um capacete de obras. O taxista alfacinha é mal humorado porque é preciso ser. E Pronto.

Só para confirmar a teoria, outro dia fui até o ponto de táxi. Chegando lá, aproximei-me do primeiro veículo da fila, cujo dono se encontrava entusiasmado numa conversa com o taxista do segundo carro [os últimos têm que esperar para entrar na conversa]. Esperei paciente as gargalhadas se acalmarem. Satisfeito de ver aquela cena rara, sorri. Está livre? Ao entrar no táxi, meu sorriso continuava latente. Mas quando procurei resposta no senhor do banco da frente [talvez na esperança de me repetir a piada], dei de cara com um retrato incrivelmente grave e sisudo, refletido no retrovisor. Já sem marcas da alegria de 5 segundos atrás. Irreconhecível. Sabe quando o jogador manda a camiseta pra torcida depois de marcar um gol? E logo chega o juíz mostrando um cartão amarelo [é, aquele cartãozinho desnecessário que vai desfalcá-lo na final do campeonato]. Então, me senti igualzinho dentro daquele táxi. Com a diferença de não ter marcado gol nenhum.

No caminho, nem uma palavra. Janelas fechadas. Rádio desligado. O único som que cortava o silêncio era uma tosse seca e ritimada [resultado de 30 anos de marcha pela madrugada]. As curvas eram precisas. A velocidade, constante. Pronto. Chegamos. Nove euros e meio, disse claramente. Dei-lhe uma nota de dez. Fique com o troco e boa noite. Retrucou-me baixinho um boa noite e arrancou no mercedez velho. Incolor. Assim mesmo. Lânguido e deveras lacônico.